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Aumenta a contaminação de poços artesianos no RS

Aumenta a contaminação de poços artesianos no RS

Entre as amostras coletadas por levantamento de sistema de vigilância estadual, 17% continham bactérias responsáveis por infecções intestinais. Resultado é o dobro da meta projetada

Cuidado com a água de vertente que parece limpa. Levantamento realizado pela Secretaria Estadual de Saúde, como parte do Sistema de Vigilância da Qualidade de Água para Consumo Humano (Siságua), constatou que 2.632 amostras coletadas em 14.901 poços artesianos, cisternas e outras fontes alternativas no Rio Grande do Sul, no ano passado, estavam contaminadas com Escherichia Coli (E.Coli) – bactéria responsável pela maioria das infecções intestinais. Isso significa 17% de infestação.

O índice preocupante vem aumentando nos últimos quatro anos: em 2014, quando o monitoramento começou a ser realizado, 10% das amostras estavam infectadas. No total, 815 mil gaúchos tomam água coletada a partir de poços e outras formas de captação sem rede de distribuição, conhecidas tecnicamente como Soluções Alternativas Coletivas (SAC). Mas não há como dizer quantos deles ingerem água contaminada. O certo é que, algumas vezes, mesmo incolor e sem cheiro, o líquido que brota dessas fontes está afetado por micróbios – em grau de risco bem superior ao das águas tratadas por empresas terceirizadas ou por estatais como a Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan).

Como a análise do Siságua é realizada por amostragem, não há como garantir que a contaminação se restringe aos poços em que a bactéria foi identificada. E mesmo que houvesse, o índice identificado representa mais que o dobro dos 8% estabelecidos pelo Estado como meta para a redução das infestações nas SAC.

A título de comparação, o mesmo teste, quando realizado em água fornecida por estatais (como a Corsan e o Departamento Municipal de Água e Esgotos de Porto Alegre), resultou em apenas 2,1% de mostras contaminadas pelo mesmo micróbio.

– O alerta é claro: vertente ou poço nem sempre são melhores do que água de torneira. Pelo contrário, o risco de contrair doenças bebendo água captada de forma caseira é muito maior – afirma o cientista Fernando Spilki, coordenador do mestrado em Virologia da Universidade Feevale, doutor em Genética e Biologia Molecular e um dos maiores especialistas gaúchos em microbiologia da água.

Os poços analisados pelo Siságua abastecem populações que vivem, em sua maioria, em zonas rurais e costumam ser abertos pela própria comunidade. Essa modalidade de abastecimento também deve ter tratamento e controle da qualidade, cuja responsabilidade é dos moradores. Muitas vezes, isso não é feito em decorrência do custo e do fato de, culturalmente, as pessoas nesses locais serem avessas à adição de cloro, por temer alteração de gosto na água.

De acordo com Spilki, esterco animal, fezes humanas e cemitérios lindeiros são as principais fontes de contaminação desses poços comunitários. As amostras com origem nas SAC foram coletadas ao longo de 2017 nos 497 municípios do Estado. Uma constatação em particular é impressionante: algumas cidades registraram 100% de poluição com micróbios. Ou seja, não foi encontrada fonte de água potável nos testes realizados.

Carência em serviços de esgoto impacta resultado

Os responsáveis pelo Siságua não têm explicação definitiva para o aumento das amostras contaminadas. Segundo Julci da Silva, que analisa os dados na Secretaria Estadual de Saúde, o cadastramento de maior número de fontes teria gerado, em parte, a ampliação também na estatística de infestações.

– É importante ressaltar que 90% da população gaúcha consome água tratada e controlada, de acordo com a legislação vigente – diz a diretora do Centro Estadual de Vigilância em Saúde, Marilina Bercini.

Ainda assim, Spilki considera a situação dos poços comunitários preocupante e diz que os números são, “sem dúvida”, altos. A detecção da E.Coli pode indicar a presença de outros germes, como vírus e protozoários, para os quais nem se faz análise de rotina, avisa o professor.

A eventual ingestão de água contaminada pode resultar na transmissão de doenças, sobretudo gastroenterite (vômito e diarreia), em crianças, idosos e pessoas com imunidade baixa. Para evitar alarmismos, Spilki define os usuários das SAC como “mais vulneráveis” que os beneficiados por empresas de saneamento e classifica o quadro atual como reflexo da precariedade nos serviços de esgoto no Brasil, o que contribui para a contaminação de fontes de água potável:

– Há grave déficit de tratamento de esgoto doméstico nas áreas urbanas gaúchas e praticamente inexistem sistemas efetivos de tratamento de pequena escala em áreas rurais. Isso reflete em maior dificuldade e custos elevados na potabilização da água.

Fonte: gauchazh.clicrbs.com.br

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