cieloambiental@gmail.com

Fone cel: (54) 9.8132-5141
Notícias

Doses toleráveis de bisfenol afetam ratos

Doses toleráveis de bisfenol afetam ratos

Filhotes de ratos expostos a doses baixas – mas não altas – de bisfenol A ainda no útero eram mais gordos e tinham alterações metabólicas ligadas a obesidade e diabetes, de acordo com um novo estudo publicado em 25 de julho.

Com base em estudos anteriores ligando o composto que altera hormônios a mudanças no peso corporal e na tolerância a glicose, a nova pesquisa alimenta uma controvérsia permanente sobre testes federais de químicos serem adequados para proteger pessoas de doses baixas.

“O assustador é que nós encontramos efeitos em níveis que o governo não apenas considera seguros, mas que nem se preocupa em testar”, explica Fredrick vom Saal, professor da University of Missouri, Columbia, e autor sênior do estudo publicado no periódico Reproductive Toxicology.

Muitos dos efeitos foram relatados nos ratos que receberam doses diárias – apenas durante a gravidez – que eram 1/10 da quantidade que a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) declara ser segura para a exposição diária durante a vida. [N.T.: no Brasil a substância foi banida de mamadeiras e doses de uso regulamentadas http://goo.gl/YIfQlp]

Usado em plásticos policarbonados, alimentos enlatados e em alguns recibos térmicos, o BPA é encontrado no corpo de quase todas as pessoas. Alguns estudos anteriores o ligaram à obesidade e ao diabetes em humanos.

De acordo com vom Saal, baixas doses de BPA provocaram um “desarranjo metabólico” na prole dos ratos expostos, sugerindo que “um componente da epidemia de obesidade e outras doenças metabólicas pode se dever à exposição química durante o desenvolvimento, quando suas células estão sendo programadas”.

Nos filhotes de rato, o BPA foi associado com ganho de peso, aumento de gordura abdominal e alimentação, comprometimento da tolerância a glicose e mais hormônios que regulam a glicose e o apetite.

Esses resultados, porém, só aconteceram quando mães receberam doses diárias, de no máximo 5 mil microgramas de BPA por quilograma de peso corporal. Essa quantidade considerada “sem efeitos” para a EPA – a quantidade diária que a agência concluiu não provocar efeitos em humanos.

De todas as doses administradas às ratas grávidas – 5, 50, 500, 5000 e 50 mil microgramas por quilograma – foi a de 500 que provocou as maiores alterações metabólicas, conta vom Saal.

O estudo se soma à controvérsia de um fenômeno chamado de “resposta não-monotônica a doses”, que significa que substâncias químicas semelhantes a hormônios, como o BPA, às vezes não agem de maneira típica; eles podem ter efeitos sobre a saúde em doses baixas, mas nenhum efeito, ou efeitos diferentes, em doses altas.

A EPA frequentemente avalia a segurança de compostos químicos com testes que expõem animais de laboratório a doses altas, e em seguida extrapola para doses mais baixas encontradas por pessoas e animais selvagens.

Em um relatório do ano passado, 12 cientistas, incluindo vom Saal, criticaram essa estratégia usada há décadas, declarando que ela não consegue detectar ameaças à saúde vindas de doses baixas de substâncias químicos semelhantes a hormônios. Pete Myers, fundador da Environmental Health Sciences, foi o autor sênior desse relatório.

No mês passado, reagindo a esse relatório, a EPA defendeu seus testes, concluindo que os testes atuais de produtos químicos que alteram hormônios são adequados para detectar efeitos de doses baixas que podem prejudicar a saúde.

Em resposta ao novo estudo de vom Saal, um porta-voz do Conselho de Química da América, que representa empresas de produtos químicos, declarou que as descobertas não haviam sido replicadas e que “apresentam conclusões que não são apoiadas pelas descobertas da extensa e recente revisão da EPA em relação ao estado da ciência sobre exposições a doses baixas”.

“As conclusões do relatório da EPA afirma o que os principais cientistas expressam há anos: a suposta evidência científica para exposições não-monotônicas a doses baixas, levando a problemas endócrinos e efeitos adversos é, no máximo, muito fraca”, escreveu Kathryn St. John em um email.

Mas o estudo com ratos oferece evidências de que “o teste com doses altas simplesmente não nos diz o que acontece em doses baixas”, explicou Laura Vandenberg, pesquisadora da Tufts University que não participou do novo estudo.

“Quando observamos a dose mais alta que os reguladores afirmam não ter efeitos adversos observados [5 mil microgramas por quilograma], nós não deveríamos ver nada”, aponta Vandenberg. “E esse não é o caso”.

A EPA não respondeu a pedidos para comentar o estudo de vom Saal.

Cientistas começam a considerar seriamente a possibilidade da contaminação ambiental por compostos químicos como potenciais contribuintes para o crescente problema da obesidade e do diabetes.

O BPA imita o estrogênio, que tem efeitos específicos sobre diferentes sistemas e órgãos do corpo, explica Thomas Zoeller, professor da University of Massachusetts, Amherst. De acordo com ele, a exposição a esses compostos químicos durante o desenvolvimento pode alterar o metabolismo ao mudar como o corpo regula a insulina e a glicose.

Zoeller acredita que o estudo de vom Saal se some à preocupação sobre os testes com químicos onipresentes. “Nós criamos um sistema em que toda a população humana está sendo exposta a compostos químicos que não tiveram sua segurança avaliada em níveis relevantes”, conclui ele.

Fonte: Scientific American Brasil

0 Comentários

Deixe uma resposta